DESENVOLVIMENTO DA REGIÃO
O desenvolvimento agrícola da região Centro-Oeste é intensificado a partir da década de 1930, com o objetivo de atender ao mercado consumidor de produtos agrícolas da região Sudeste, assim, o desenvolvimento agrícola do Centro-Oeste esteve diretamente ligado ao desenvolvimento industrial do país, que se iniciou na região Sudeste nesse período. A necessidade de um custo de mão-obra mais barato levou a indústria a pressionar o setor agrícola, para que ele elevasse a oferta de bens primários, buscando, conseqüentemente, uma redução dos preços dos produtos agrícolas. Com uma maior oferta de produtos agrícolas, menor seria o custo da força de trabalho industrial, sendo que isso seria fundamental para o fortalecimento do setor industrial brasileiro. Dessa forma, o processo de industrialização da região Sudeste passou a demandar da agricultura uma evolução técnica e produtiva. Com isso, a região Sudeste promoveu uma reestruturação do espaço agrário nacional, reorganizando-o de acordo com os interesses do capitalismo industrial que começava desenvolver-se no país. É nesse contexto que a região Centro- Oeste e, portanto, o estado de Goiás passam a integrar a nova dinâmica capitalista do país, como uma região capaz de contribuir, por meio do fornecimento de bens primários, para a consolidação do capital industrial. A construção de Goiânia, na década de 1930, foi um marco na inserção do estado no processo de divisão interregional do trabalho e de interiorização do país, sendo considerada um símbolo governamental na inserção do Centro- Oeste na dinâmica capitalista nacional. Apesar de no período em análise ter ocorrido uma reorientação do padrão de acumulação capitalista no país, passando de agropecuário para industrial, o estado de Goiás não acompanha a tendência da região Sudeste, pois continuou alicerçado na agropecuária. Assim, a ocupação de novas áreas na fronteira e a redução dos custos de produção tornaram-se a base do crescimento da produção agropecuária goiana.
Os obstáculos ao processo de integração regional do Centro-Oeste
As dimensões continentais do Brasil redundavam sempre em impasses para a sua integração econômica e geográfica, visto que as grandes distâncias entre os centros regionais dificultavam a expansão do capital pelo país, e, como salienta Cunha (2002), a incorporação do interior à economia nacional estava calcada num mercado interno inexpressivo e na precariedade das estruturas de transporte, de energia e de comunicações. Tendo em vista esses aspectos, é importante mostrar o papel que os meios de transportes e comunicações tiveram frente à integração nacional. A ferrovia foi o meio de transporte que iniciou a integração nacional, pois ela contribuiu para estender a fronteira agrícola, criando e ligando os pontos de produção agropecuária. A construção de ferrovias faz parte da própria gênese do processo de constituição do mercado nacional, permitindo a absorção das mercadorias mais elaboradas que vinham dos núcleos urbanos mais avançados e viabilizando o escoamento dos bens agropecuários as outras regiões. A melhoria das condições do translado das mercadorias induz à maior especialização produtiva de diversas áreas geográficas, possibilitando uma crescente complementaridade entre suas estruturas produtivas. Assim, o papel do aperfeiçoamento das comunicações entre diferentes áreas vai desenhando uma divisão inter-regional do trabalho Dessa forma, como em diversas outras regiões do país, o estado de Goiás possuía as características necessárias para ser considerado uma nova fronteira agrícola, porém existiam algumas barreiras que inibiam a sua inserção no novo processo de acumulação capitalista. Essas barreiras eram as péssimas condições de transportes e comunicação. Devido à localização do estado, o alto custo dos transportes elevava o valor final dos bens e, ao mesmo tempo, reduzia a competitividade do produto goiano na região Sudeste. Para a consolidação do estado como fornecedor de bens primários, seriam necessários meios de transportes mais rápidos e eficientes, a fim de obter custos mais baixos e maiores condições de comercialização na região Sudeste. A Estrada de Ferro Goiás teve suas obras iniciadas na primeira metade do século XX, e, apesar de apresentar graves deficiências, como a grande lentidão de suas obras, problemas técnicos, entre outros, teve papel relevante. Foi o primeiro meio de transporte que propiciou ao estado de Goiás condições reais de escoamento da sua produção para a região Sudeste, embora ainda não atendesse todas as necessidades, pois os trilhos não percorriam todas as regiões do estado, servindo, inicialmente, às regiões mais ao sul do estado. O trem-de-ferro (simbolizado na maria-fumaça) com seu silvo estridente e cauda em aço, emplumada em fumaça, serpenteando pelos sertões, despertava Goiás de séculos de isolamento e transformava a paisagem regional através de um processo dialético marcado pela destruição/reconstrução do espaço Além de fazer todo o transporte de produtos destinados à exportação, levava, também, os produtos manufaturados do Sudeste para Goiás. Assim, a estrada de ferro, mais especificamente, os terminais ferroviários desempenharam a função de transformar a vida econômica e social das populações que viviam naqueles locais, pois, aos redores dos terminais ferroviários, desenvolveram- se vilas, vilarejos, acompanhados de um dinâmico comércio. A Estrada de Ferro de Goiás foi importante para a inserção de Goiás no processo de acumulação de capital industrial que estava ocorrendo no país. Porém os problemas financeiros e técnicos, em conjunto com a chegada da rede rodoviária federal na região Centro-Oeste, levaram a Estrada de Ferro de Goiás a assumir um papel secundário como um meio de transporte. Em última análise, a ferrovia, além de ter constituído uma via de transporte estratégica na ocupação do Centro-Oeste, foi um elemento fundamental na reorganização do espaço agrário regional e na estruturação da economia goiana. Nesse contexto, a malha rodoviária viria complementar a infra-estrutura de transportes, necessária à plena inserção do estado de Goiás ao mercado nacional. Até a década de 1950, o desenvolvimento das rodovias no estado ficava a cargo da iniciativa privada, dos governos estadual e municipal, não apresentando grande desenvolvimento, em razão da escassez de recursos para aplicar nessa área. A escolha pela expansão da rede rodoviária e não pela expansão e melhorias da rede ferroviária teve como pano de fundo o interesse político, pois os governos estaduais distribuíam subsídios ao capital privado. Com a construção de Brasília, o contexto foi alterado, passando a ser de interesse federal o desenvolvimento da estrutura rodoviária do Centro-Oeste. Com esse objetivo, foram feitos grandes investimentos em melhorias e na construção de novas rodovias, visando atender às necessidades da nova capital do país e, com isto, consolidar a posição da região como fronteira agrícola e grande exportadora de bens primários para a região Sudeste do país. A rodovia Belém-Brasília teve, também, papel relevante ao beneficiar as regiões localizadas mais ao norte do estado, proporcionando a essas áreas maior integração aos mercados das regiões Norte e Sul do país. Mais uma vez, o interesse político foi responsável pela maior vontade governamental em levar o projeto ao fim, visto que a emergente indústria automobilística multinacional, que estava sendo implantada no país, necessitava de novos mercados consumidores, e a expansão da malha rodoviária era o caminho para esse mercado.
A conquista do Centro-Oeste: a dinâmica regional da fronteira agrícola
A expansão da fronteira agrícola no Centro-Oeste, que teve início na década de 1940, ficou mais conhecida como a “Marcha para o Oeste”, e seu principal objetivo foi atender à demanda de produtos primários, para a região que iniciava o seu processo de industrialização, a região Sudeste. Secundariamente, esteve assentada também, em questões mais gerais, como, por exemplo, às migrações. Portanto, com a Marcha para o Oeste, Goiás foi incorporado ao processo produtivo nacional como fornecedor de gêneros alimentícios e matérias-primas e, principalmente, como absorvedor dos excedentes populacionais de outras regiões do país. [...] A expressão máxima e o coroamento da Marcha para o Oeste se deram com a construção de Brasília. Passar a abrigar a capital federal significou profundas alterações econômicas e políticas para o estado – aceleração do ritmo migratório; ocupação de novas terras; abertura de estradas; expansão do mercado; novos empregos (PESSOA, 1999. p. 47). A “Marcha para o Oeste” foi considerada por Martins (1997) como uma frente pioneira, em que o Estado teve importante papel, ao acelerar o seu deslocamento sobre os territórios “novos”, já ocupados pela frente de expansão. É nesse sentido que o autor chama atenção para a dimensão conflitava existente nas regiões de fronteiras, onde a (re) ocupação dos territórios era feita por meio do encontro entre as frentes, o que, na maioria das vezes, se culminava em conflitos violentos. Cabe ressaltar que o Centro-Oeste, assim como outras regiões do país assumiram, nesse momento para Brandão (1999), a função de amortecedores do caos social que foi gerado na região Sudeste. Para ele, as fronteiras agrícolas se constituíram em verdadeiras “válvulas de escape” para os problemas populacionais gerados pelo processo de urbanização nessa região. Nesse sentido, o estado de Minas Gerais foi o principal responsável pela migração para as áreas de fronteira em Goiás, seguido dos estados da região Nordeste, como Maranhão e Bahia.
A nova fronteira agrícola esteve assentada, durante um período, em projetos de colonização privados e estatais, que entraram em crise, tanto por falta de interesse político como por falta de planejamento e investimentos. Os agricultores que viviam nos assentamentos foram gradativamente engolidos pelos latifundiários, expondo a ineficiência desses projetos. a expansão da fronteira agrícola, na forma em que se processou no país, por um lado, favoreceu o aumento da produção de alimentos para atender a demanda da população urbana e, por outro, contribuiu para a reprodução do latifúndio e da agricultura tradicional no Centro-Oeste (BORGES, 2000, p. 72). Nas décadas de 1950 e 1960, os pequenos produtores, que tomaram posse da terra no primeiro momento da abertura da fronteira agrícola, tiveram a função de desmatar e preparar a terra a um baixo custo para posteriormente ela ser apropriada por grandes fazendeiros, que se dedicavam à pecuária extensiva. A expropriação do pequeno produtor significou o fechamento da fronteira nas regiões sul e central de Goiás, e, ao mesmo tempo, a sua partida em busca de novas áreas de fronteira. Para Martins (1997), a primeira forma de ocupação, marcada pela presença de pequenos agricultores, pode ser considerada como frente de expansão, já a segunda, que assume a forma de grandes fazendeiros, é chamada de frente pioneira. O fechamento da fronteira se deu no momento em que a frente pioneira chegou e promoveu a invasão das terras pelos grandes proprietários e empresários, causando, assim, não só a expropriação econômica do pequeno agricultor, mas também a cultural. A perda de laços de amizade e vizinhança, que foram cultivados ao longo de muitos anos, e a busca por novas terras, significaram a inserção em um novo cotidiano, que, por vezes, pode ser diferente do anterior, impondo uma redefinição de costumes, tradições e, além disso, um novo relacionamento entre o homem e a natureza. É nesse sentido, também, que Graciano da Silva (1982) define o fechamento da fronteira, no momento em que a terra deixa de ser livre e de ser apropriada por pequenos produtores, para se tornar uma mercadoria, uma reserva de valor, ou seja, a terra passou a ser apropriada de uma forma privada. Ao mesmo tempo em que as fronteiras sul e central se fechavam no estado de Goiás, a região norte do estado mostrava um processo de abertura de fronteira, que culminou com a consecução da rodovia Belém-Brasília. A partir de meados dos anos de 1960, o norte do estado passou a ser incorporado à fronteira agrícola, e grandes projetos agropecuários e madeireiros começaram a ser instalados nessa região. Cabe esclarecer que, conforme Graziano da Silva (1999), pode-se ter ainda duas fronteiras agrícolas. Uma “interna”, constituída por terras não-exploradas, mas já apropriadas privadamente, que, neste caso, correspondeu às regiões sul e central de Goiás. A outra, a fronteira “externa”, formada por terras que ainda não se transformaram em propriedade privada, como é o caso do norte do estado de Goiás.
O período em análise teve crucial importância para o estado de Goiás, pois foi marcado pela inserção do estado no processo de modernização da agricultura, e também por um aumento populacional significativo. Como se pode observar na tabela 2, é a partir da década de 1950 que o estado começa apresentar um crescimento populacional que supera os números nacionais, sendo que, em 1950, a população goiana representava 1,9% da população brasileira e em 1970 esse número chegava 3,2%.
O aumento populacional se deu, em grande parte, devido ao início da construção de Brasília e à abertura da rodovia Belém-Brasília, que foi inaugurada em 1959. Um outro fator que provocou a expansão da população para a região foi o surgimento de grandes programas de colonização, resultado de parcerias entre o governo e empresas privadas, que atraíram pequenos produtores de outras regiões, principalmente do sul do país. Além disso, segundo Cunha (2002), na década de 1970 a região contribuiu para amenizar tensões demográficas de outras regiões servindo de acomodação para seguidos fluxos migratórios e de via de penetração para a ocupação do Norte do Brasil. Assim, a partir da década 1950, Goiás conheceu uma profunda aceleração produtiva e populacional, resultado do processo de ocupação das áreas de fronteiras.






